Tinha certeza de que minha Páscoa seria em Buenos Aires: passagens compradas, hostel reservado, tudo programado para um roteiro de 4 dias na capital argentina... mas como já dizia a música "todo cambia" e que bom que é assim! Assim, dia 12/04 já tinha uma pulga atrás da orelha sobre qual seria o destino da Pascoa... ou continuava com a viagem a BsAs ou mudava os planos e ia até a Bolivia, numa viagem de 8 dias com barraca e mapa na mao, contando com a ajuda de pessoas dispostas a compartilhar de nossa aventura, com a certeza de que seria diferente de qualquer experiência que já tive...
Aquela semana que antecedia o sábado 16/04 foi de correr atrás das coisas para acampar e poder colocar o pé na estrada. Foi também de noites mal dormidas na incerteza de estar fazendo a escolha correta... de um lado a adrenalina de colocar o pé na incerteza da estrada e de outro o medo de me arrepender. Sempre tive muita vontade de fazer um mochilão, sair meio sem destino e deixando que as circunstacias digam a melhor rota. Confesso que ao mesmo tempo nunca me permiti planejar algo assim, talvez porque nunca antes tive a sorte de uma convergencia de situaçoes assim, prefiro acreditar que tudo na vida tem seu tempo e o que se pode fazer é preparar-se para aproveitar quando a oportunidade bate na porta.
"Todo listo", sabado (16/04) saímos da RAE às 9:00 tomamos um onibus e fomos até a ruta (?) aí nos dividimos em 2 grupos: Cindy-Jesus e eu-Sergio-Manoel. Caminhamos 1 km até que conseguimos carona com uma camioneta que nos levou até Esperanza e aí paramos para conhecer a RAE 2 (Residencia Alumnos Extranjeros), ganhamos bolachas, torradinhas, laranja e suco para a viagem. Voltamos para a estrada e conseguimos carona em outra camioneta até Rafaela, aí paramos para almoçar (atum com biscoito e maionese) e encontramos com Cindy e Jesus, mas logo seguimos nosso trajeto até um posto de gasolina onde o 1º caminhão nos levantou, prometemos a Gustavo mate, buena charla e algo de comer.
Já tinha 2 doses de adrenalina com as camionetas, mas confesso que subir num caminhão foi a certeza de que essa semana seria "inolvidable". Em poucos km já tinhamos muitas histórias e boas risadas, repartimos nossa comida com o porteño Gustavo que repartiu conosco suas vivências. Ao entardecer chegamos ao pedagio de Ceres e armamos acampamento ali mesmo, numa grama recém aparada, para dormir sem banho e comer atum com bolacha e uma maçã.
Nessa 1ª noite Jesus chega ao pedagio também e avisa que Cindy havia desistido da viagem, ou seja, tudo estaria mais dificil agora... Pensei muito em voltar dalí mesmo, mas isso representaria uma super preparação e animação que se reverteria em decepção e frustração. No outro dia de manhã despertamos com um sol que logo se escondeu, busquei agua caliente no pedagio para preparar um mate (um grande atrativo para os caminhoneiros, já que mate tá sempre atrelado a "una buena charla") e aí tava outro ponto confuso da viagem: pessoas me perguntando se eu nao tinha medo de viajar assim a dedo, se conhecia os guris e se meus pais sabiam onde eu andava. Bueno: eu tinha um medinho sim, moro na mesma casa que os guris estranjeiros já quase 2 meses (sei que lá em casa me diriam que a gente nunca conhece 100% uma pessoa, mas de que adianta viver desconfiando?) e por fim, familia tava toda sabendo onde eu ia, mas confesso que nao fui corajosa o suficiente para bater no peito e dizer que iamos de carona sem saber onde passariamos as noites ou talvez preferi falar que iamos de onibus e ficariamos em hostel na tentativa de amenizar a angústia de quem põe a cabeça no travesseiro e reza para que meus dias sejam abençoados...
Com a nova configuração do grupo teriamos que nos dividirmos em duplas para que assim fosse mais facil que alguém parasse para nós. Domingo pela manhã no pedagio de Ceres, eu e Sergio começamos a pedir carona, ele com um cartão escrito Tucuman e sua mochila gigantesca e eu com meu "dedo de carona" e sorriso no rosto.
Aí tá uma coisa que nao posso deixar de falar: conversando com algumas pessoas que me perguntavam: tu nao te sentes como usando da relaçao de gênero que há entre tu mulher na estrada pedindo carona e um camioneiro. E eu respondo que a experiencia dessa semana fez com que eu mudasse de ideia: todas as pessoas que nos levaram sempre tiveram com nós uma relação de respeito. Ouvi buzinas e "tonterías" na estrada, mas pra mim isso era totalmente abstraido quando subiamos em um caminhão e pudiamos falar sobre familia e economia, futebol e cerveja, sobre o clima e sobre logistica.
Na manhã de domingo Cristian nos levantou, um porteño muy buena onda que nao acreditava que estavamos em uma dieta de atum com biscoito e por isso tratou de presentear a nós 4 (sim, ele aceitou levar o quarteto todo) com um almoço de sandwich de milanesas e coca-cola. Fomos com ele até Tucuman, uma cidade grande do jeito que eu nao gosto, cinza, transito maluco, ares de perigo. Ficamos em um camping municipal, enfim teriamos chuveiro (de agua gelada, claro) armamos as barracas, jantamos pao com geleia e alfajor! Tudo bem até que... ratos subindo nas arvores, ou seja, seria uma noite para dormir com um olho aberto e o outro fechado, afinal, tinhamos alguma coisa de comida que poderia ser um atrativo [MEDO mode on]!!!
Agora vou sair aqui para buscar a mãe que tá chegando na rodoviária, hoje mesmo ou amanhã escrevo mais!
Abaixo segue video da musica que estou ouvindo enquanto escrevo... "Tu no puedes comprar las nubes... los colores... mis alegrias...mis dolores"
Tem participaçao especial da Maria Rita cantando em português, linda musica!
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